O que é a síndrome de Marfan?
A síndrome de Marfan é uma doença do tecido conjuntivo, um conjunto de tecidos resistentes que mantêm a estrutura do corpo e sustentam os órgãos. É causada por mutações no gene FBN1, que produz uma proteína chamada fibrilina, responsável pela resistência deste tecido.
Com a fibrilina alterada, o tecido conjuntivo enfraquece. Os tecidos fracos esticam, deformam-se e podem até romper-se. Isto afeta os ossos e as articulações e também o coração, os vasos sanguíneos, os olhos e, por vezes, os pulmões, o cérebro e a medula espinal. O defeito faz também alguns ossos crescerem mais do que deviam.
É rara: o NHS calcula que afete cerca de 1 em cada 5000 pessoas no Reino Unido, mas é uma das doenças do tecido conjuntivo mais comuns. Afeta homens e mulheres por igual.
Como se herda?
A síndrome de Marfan é hereditária e passa de pais para filhos de forma dominante: basta um dos pais ter a doença para a criança a poder herdar.
- em cerca de 3 em cada 4 casos, a doença é herdada de um dos pais;
- o filho ou filha de uma pessoa com Marfan tem uma probabilidade de 1 em 2 de a herdar;
- nos restantes 1 em cada 4 casos, nenhum dos pais tem a síndrome: o gene muda pela primeira vez no óvulo ou no espermatozoide.
Por isso, o Manual MSD recomenda aconselhamento genético para a pessoa e a família.
Sinais no corpo e nos ossos
Os sintomas variam de ligeiros a graves, e muitas pessoas nunca dão por eles; noutras só se tornam evidentes na idade adulta. Os sinais típicos são:
- estatura mais alta do que o esperado para a idade e para a família;
- braços abertos com uma amplitude maior do que a altura;
- dedos das mãos e dos pés compridos e finos;
- esterno saliente ou afundado;
- articulações muito flexíveis, pés planos e joelhos que dobram para trás;
- curvatura da coluna (cifoescoliose), hérnias e pouca gordura sob a pele.
Pode haver também um crânio comprido e estreito, olhos encovados, maxilar inferior recuado e céu da boca muito arqueado. Sobre a curvatura da coluna, veja o guia escoliose.
O maior risco: o coração e a aorta
As complicações mais perigosas surgem na aorta, a grande artéria que leva o sangue do coração ao corpo. A parede da aorta pode enfraquecer e:
- alargar e formar uma saliência (aneurisma), que pode romper;
- deixar o sangue infiltrar-se entre as camadas da parede (dissecção da aorta), rasgando-a.
Estes problemas surgem por vezes antes dos dez anos. Se a aorta alargar, a válvula aórtica pode deixar refluir sangue, e a válvula mitral pode também ter fugas ou prolapso. Estas alterações podem prejudicar a capacidade de o coração bombear, e as válvulas alteradas podem sofrer infeções graves (endocardite). O NHS refere que, quando o coração e a aorta são muito afetados, a esperança de vida pode diminuir.
Olhos, pulmões e coluna
- Olhos: o cristalino de um ou dos dois olhos pode deslocar-se; é comum uma miopia forte, e a retina pode descolar-se de repente. Estes problemas podem causar perda permanente de visão.
- Pulmões: podem formar-se pequenas bolsas de ar (quistos) que rebentam e enchem de ar o espaço à volta do pulmão (pneumotórax), causando dor no peito e falta de ar.
- Medula espinal: o saco que a envolve pode alargar (ectasia dural), sobretudo na parte baixa da coluna, e causar dor de cabeça, dor lombar ou fraqueza do intestino ou da bexiga.
Há também uma forma muito grave, a síndrome de Marfan neonatal, que dá sintomas em bebés pequenos ou mesmo na ecografia (ultrassom) antes do nascimento.
Como se diagnostica?
O diagnóstico pode ser difícil, porque os sintomas variam muito de pessoa para pessoa e nem sempre surgem na infância; pode só ser identificado na adolescência. O médico suspeita quando uma pessoa invulgarmente alta e magra tem sinais característicos ou quando há familiares diretos com o diagnóstico.
Baseia-se num exame físico completo, na história clínica e familiar e em critérios sobre o grau em que o coração, os olhos e os ossos são afetados. Fazem-se:
- testes genéticos ao sangue;
- ecocardiograma do coração e da aorta;
- ressonância magnética do coração e da coluna;
- radiografias da coluna e da bacia;
- exames aos olhos.
Tratamento e seguimento
Não há cura nem forma de corrigir o tecido conjuntivo, por isso o tratamento procura prevenir e corrigir as complicações perigosas. A pessoa é seguida por uma equipa de vários profissionais, com exames ao coração, aos ossos e aos olhos todos os anos.
- Medicamentos: por grupos, betabloqueadores e bloqueadores dos recetores da angiotensina, que fazem o sangue passar mais suavemente pela aorta; dão-se a todos os adultos e às crianças conforme a idade e o tamanho da aorta.
- Cirurgia da aorta e das válvulas: se a aorta alargar, pode reparar-se ou substituir-se a parte afetada antes de surgirem problemas.
- Cirurgia dos olhos: retirar ou substituir o cristalino deslocado e reparar a retina.
- Coluna: um colete para a escoliose e, se for grave, cirurgia.
Segundo o Manual MSD, a gravidez aumenta o risco de dissecção da aorta quando esta está alargada, e os médicos podem discutir a reparação da aorta antes de engravidar e o tipo de parto.
Desporto e vida diária
A atividade física é benéfica para todos, incluindo quem tem síndrome de Marfan, mas há cuidados. As orientações gerais aconselham evitar:
- desportos de competição que aumentam o esforço sobre a aorta;
- desportos de contacto e com risco de choque ou colisão;
- atividades que possam causar lesões nos olhos ou forçar ligamentos e articulações laxos.
Os profissionais de saúde podem ajudar a avaliar os riscos e a decidir que atividade fazer. A esperança de vida é quase igual à da população geral, mas a qualidade de vida pode ser pior, pela dor crónica, pelas limitações físicas e pelo impacto psicológico.
Onde as fontes divergem
As duas fontes concordam nos pontos principais, mas diferem em alguns detalhes:
- Esperança de vida. O Manual MSD diz que é quase igual à de quem não tem a doença. O NHS avisa que pode diminuir quando o coração e a aorta são muito afetados.
- Herança. O NHS explica as probabilidades de transmissão e os casos novos. O Manual MSD centra-se no gene e na proteína fibrilina.
- Tratamento. O Manual MSD detalha os medicamentos, as cirurgias e o desporto. O NHS refere o seguimento por uma equipa de vários profissionais.
Pontos-chave sobre a síndrome de Marfan
- A síndrome de Marfan é uma doença hereditária rara do tecido conjuntivo.
- Os sinais típicos são estatura alta, membros e dedos longos e articulações flexíveis.
- O maior risco está na aorta, que pode alargar ou rasgar.
- Pode afetar também os olhos, os pulmões e a coluna.
- Diagnostica-se com exame físico, história familiar, testes genéticos e exames de imagem.
- Não tem cura, mas o seguimento anual, os medicamentos e a cirurgia previnem complicações.
Perguntas frequentes sobre a síndrome de Marfan
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
O que é a síndrome de Marfan?
É uma doença hereditária rara do tecido conjuntivo que afeta os ossos, os olhos, o coração e os vasos sanguíneos.
A síndrome de Marfan é hereditária?
Sim. Na maioria dos casos é herdada de um dos pais, e cada filho ou filha de uma pessoa afetada tem 1 em 2 probabilidades de a herdar.
Quais são os sinais típicos?
Estatura alta, braços, pernas e dedos longos e finos, articulações flexíveis, problemas do coração e cristalino deslocado.
Porque é que a aorta é tão importante?
Porque a parede pode enfraquecer, alargar e romper ou rasgar, o que é a complicação mais perigosa.
Quem tem síndrome de Marfan pode fazer desporto?
A atividade física é benéfica, mas devem evitar-se desportos de competição e de contacto; os profissionais de saúde ajudam a decidir.
Qual é a esperança de vida?
Segundo o Manual MSD, é quase igual à de quem não tem a doença, sobretudo com seguimento e tratamento das complicações.
Fontes
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.
