O que é a hemofilia?
Os fatores de coagulação são proteínas do sangue que interagem para o fazer coagular e parar as hemorragias. Na hemofilia falta um destes fatores. Há duas formas principais:
- Hemofilia A: falta do fator VIII; representa cerca de 80% dos casos.
- Hemofilia B: falta do fator IX.
As duas formas têm hemorragias e consequências semelhantes, mas os medicamentos usados em cada uma são diferentes. Outras doenças, como a doença de von Willebrand, podem causar sintomas parecidos.
Como se herda a hemofilia
A maioria das pessoas com hemofilia nasce com ela. A causa são alterações genéticas ligadas ao sexo, herdadas da mãe, e por isso a maioria das pessoas afetadas é do sexo masculino. O NHS explica que as portadoras do gene alterado podem ter sintomas, mas isso é menos comum e os sintomas são mais ligeiros.
É possível desenvolver hemofilia mais tarde na vida (hemofilia adquirida), mas isso é muito raro. O Manual MSD aconselha a testar os familiares para saber se são portadores do gene alterado.
Hemofilia: sintomas
O principal sintoma é a hemorragia excessiva. Os sintomas costumam começar na primeira infância, mas às vezes só se notam mais tarde:
- hemorragias prolongadas depois de uma lesão, de uma cirurgia ou de tirar um dente;
- nódoas negras com facilidade, sobretudo nas crianças;
- dor, rigidez e inchaço das articulações, por hemorragia nas articulações ou nos músculos;
- hemorragias dentro do abdómen ou da cabeça.
Hemofilia ligeira, moderada e grave
- Ligeira (atividade de coagulação entre 5% e 49% do normal): pode não ser diagnosticada, mas há hemorragias maiores do que o esperado após cirurgias, extrações dentárias ou lesões graves.
- Moderada (1% a 5%): poucas hemorragias espontâneas, mas cirurgias ou lesões podem causar hemorragias descontroladas; o primeiro episódio surge em geral antes dos 18 meses.
- Grave (menos de 1%): hemorragias graves repetidas com pequenas lesões ou sem razão aparente, muitas vezes logo a partir do parto.
Na forma grave, hemorragias repetidas nas articulações e nos músculos podem causar deformidades e incapacidade, e uma pequena pancada na cabeça pode causar uma hemorragia grande no cérebro. Quanto menos fator houver, mais tratamento é preciso.
Quando procurar ajuda?
- Urgência (SAMU 192 no Brasil; 112 em Portugal): com hemofilia e pancada na cabeça, ferida grave ou profunda, sangue nas fezes ou fezes vermelho-escuras ou negras, vómitos ou tosse com sangue, ou dor de cabeça súbita e forte com confusão, sensibilidade à luz, náuseas ou vómitos. Se possível, trate logo a hemorragia com a medicação habitual e não conduza até ao hospital.
- Contactar já a equipa de hemofilia: dor, inchaço, formigueiro ou dormência numa articulação ou músculo, sangue na urina, qualquer hemorragia que preocupe, ou hemorragia sem medicação para a tratar.
- Consulta normal: se tiver sintomas de hemofilia ou uma criança a seu cargo os tiver, ou em caso de gravidez ou de planear uma gravidez e houver hemofilia na família.
Consulte o seu médico.
Como se faz o diagnóstico
O médico suspeita de hemofilia numa criança que sangra sem causa aparente ou mais do que o esperado após uma lesão. Uma análise de sangue mostra se a coagulação é anormalmente lenta, e a medição dos fatores VIII e IX confirma o diagnóstico, o tipo e a gravidade.
Depois do diagnóstico, a pessoa é encaminhada para um centro de hemofilia. Em centros especializados há testes genéticos para quem pode ser portador e testes antes do nascimento. O NHS refere que quem tem risco de ter um filho com hemofilia pode falar com um conselheiro genético, e que há testes antes, durante e depois da gravidez.
Tratamento da hemofilia
O tratamento principal é repor o fator de coagulação que falta, com injeções. Os fatores podem ser obtidos do plasma de dadores, tratado para inativar vírus, ou produzidos em laboratório (fatores recombinantes), sem risco de infeção. O NHS sublinha que os fatores usados hoje são muito seguros.
- Tratamento preventivo: na hemofilia grave, em geral injeções até 3 vezes por semana, que muitas vezes a própria pessoa faz em casa.
- Tratamento quando há hemorragia: na hemofilia ligeira ou moderada, para parar a hemorragia e antes de cirurgias ou tratamentos dentários.
- Outros medicamentos e terapia genética: há outros tipos de medicamentos para a hemofilia e uma terapia genética para as hemofilias A e B.
Algumas pessoas desenvolvem anticorpos contra o fator (inibidores), que tornam o tratamento menos eficaz; nesse caso, a equipa procura um tratamento mais adequado.
Viver com hemofilia
- usar logo a medicação habitual e pedir ajuda médica perante qualquer hemorragia;
- fazer exercício regular para manter as articulações saudáveis; um fisioterapeuta pode ajudar a escolher o tipo de exercício;
- cuidar dos dentes e das gengivas e ir ao dentista com regularidade, para evitar extrações;
- falar com a equipa de hemofilia antes de tomar novos medicamentos ou de planear uma cirurgia ou tratamento dentário;
- não tomar ácido acetilsalicílico nem outros anti-inflamatórios não esteroides, que interferem com as plaquetas;
- evitar desportos de contacto, como o râguebi ou o boxe, salvo indicação da equipa, e usar uma pulseira de alerta médico.
Com tratamento, o impacto no dia a dia é muito menor. As complicações possíveis incluem lesões das articulações, por vezes com necessidade de prótese, e hemorragias graves após cirurgias ou lesões. Veja também a secção de fisioterapia.
Onde as fontes divergem
As duas fontes concordam nos pontos principais, mas diferem em alguns detalhes:
- Origem. O Manual MSD descreve a hemofilia como hereditária. O NHS refere também uma forma adquirida mais tarde na vida, muito rara.
- Transfusões antigas. O NHS avisa que quem recebeu transfusões antes de 1996 pode ter sido infetado com hepatite C e deve pedir testes. O Manual MSD refere que os fatores do plasma são tratados para inativar vírus.
- Detalhe. O Manual MSD dá as percentagens de cada grau de gravidade. O NHS detalha os níveis de urgência e os cuidados do dia a dia.
Pontos-chave sobre a hemofilia
- A hemofilia é uma doença hereditária da coagulação do sangue.
- Deve-se à falta do fator VIII (hemofilia A) ou do fator IX (hemofilia B).
- Causa hemorragias prolongadas, nódoas negras e hemorragias nas articulações.
- Diagnostica-se com análises que medem os fatores de coagulação.
- Trata-se repondo o fator em falta, de forma preventiva ou quando há hemorragia.
- Pancada na cabeça ou hemorragia grave exigem urgência.
Perguntas frequentes sobre a hemofilia
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
O que é a hemofilia?
É uma doença em que o sangue não coagula bem por falta do fator de coagulação VIII ou IX.
A hemofilia é hereditária?
Em geral sim. As alterações genéticas são herdadas da mãe e afetam sobretudo pessoas do sexo masculino.
Quais são os sintomas da hemofilia?
Hemorragias prolongadas após lesões, cirurgias ou extrações dentárias, nódoas negras fáceis e dor e inchaço nas articulações.
A hemofilia tem cura?
Em geral não, mas o tratamento controla os sintomas e a esperança de vida costuma ser normal.
Como se trata a hemofilia?
Com injeções do fator de coagulação em falta, de forma preventiva ou quando há hemorragia, e outros medicamentos.
Que medicamentos se devem evitar?
O ácido acetilsalicílico e outros anti-inflamatórios não esteroides; consulte a equipa antes de qualquer medicamento novo.
Fontes
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.
