O que significa dislalia
Dislalia é um termo usado sobretudo em países de língua portuguesa e espanhola para descrever a dificuldade em produzir corretamente um ou mais sons da fala: a criança omite um som («pato» em vez de «prato»), troca-o por outro («tasa» em vez de «casa») ou distorce-o. Não depende de lesões neurológicas nem de falta de inteligência.
Na literatura internacional e no portal da American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) fala-se em transtornos dos sons da fala (em Portugal, perturbação dos sons da fala). Incluem as dificuldades de articulação, ligadas ao movimento da língua e dos lábios, e as dificuldades fonológicas, ligadas à forma como a criança organiza os sons dentro da palavra.
A distinção é útil: uma criança pode saber articular o «r» isoladamente e, ainda assim, simplificá-lo nas palavras; outra pode ter apenas um som distorcido. O plano de terapia é diferente em cada caso.
Os tipos mais comuns
- Sigmatismo ou ceceio: dificuldade com o «s» e o «z», que saem com a língua entre os dentes, assobiados ou laterais. No Brasil é frequente ouvir dizer que a criança «tem a língua presa», mesmo quando o freio da língua é normal.
- Rotacismo: dificuldade com o «r», sobretudo o «r» brando («caro») e os grupos com «r» («prato», «trem»), que muitas vezes é trocado por «l» («plato»).
- Lambdacismo: dificuldade com o «l» e com o «lh» («filho» dito «fiio»).
- Dificuldade com o «nh» e com os grupos consonantais («bl», «cl», «fl»), que chegam mais tarde no desenvolvimento.
- Substituições de sons posteriores por anteriores, como «t» em vez de «c» ou «d» em vez de «g» («dato» em vez de «gato»).
- Trocas de sons surdos e sonoros, como «f» e «v» ou «p» e «b», que merecem atenção porque podem aparecer depois na escrita.
Com que idade os sons devem aparecer
O desenvolvimento dos sons é gradual. A revisão de McLeod e Crowe, que comparou 27 línguas, mostra que a maioria das consoantes é adquirida até cerca dos 5 anos, com diferenças entre crianças e entre línguas. Os primeiros sons costumam ser «p», «b», «m», «t», «d» e «n»; mais tarde chegam o «s», o «z», o «r», o «lh» e os grupos consonantais.
Por isso, alguns erros são normais aos 3 anos e já não o são aos 6. Como referência prática: aos 3 anos, pessoas de fora da família devem entender boa parte do que a criança diz; aos 4–5 anos, a fala deve ser quase toda compreensível, mesmo com alguns sons ainda imperfeitos, como o «r» dos grupos consonantais.
Cada criança tem o seu ritmo, mas um atraso grande em relação a estas idades, ou uma fala que quase ninguém entende, justifica uma avaliação.
Por que acontece
- Dislalia evolutiva: erros típicos da idade, que se resolvem com o crescimento.
- Dislalia funcional: a criança não aprendeu o movimento correto, sem causa física.
- Dislalia audiógena: ligada a uma perda de audição, mesmo temporária, como nas otites serosas de repetição.
- Dislalia orgânica: devida a causas estruturais, como freio da língua curto, alterações da mordida ou fenda palatina.
O estudo de Wren e colaboradores encontrou entre os fatores associados aos transtornos persistentes o sexo masculino, a fala pouco inteligível aos 3 anos, os problemas de audição e a colocação de tubos de ventilação nos ouvidos.
Quando se preocupar
- Aos 3 anos, pessoas de fora entendem pouco do que a criança diz.
- Aos 4–5 anos ainda troca muitos sons ou simplifica muito as palavras.
- Depois dos 6 anos continuam erros no «s», no «r» ou noutros sons.
- A criança percebe os erros, fica incomodada ou evita falar.
- Há também dificuldades para entender, para formar frases ou, mais tarde, para ler.
- Teve muitas otites ou parece ouvir mal.
Como é a avaliação
O fonoaudiólogo (em Portugal, o terapeuta da fala) observa como a criança pronuncia os sons em palavras soltas, em frases e na conversa espontânea. Avalia também os movimentos dos lábios, da língua e da mandíbula, a respiração, a deglutição e a linguagem em geral, para separar os erros típicos da idade dos que precisam de intervenção.
Muitas vezes é útil um exame de audição, sobretudo se a criança teve otites repetidas. Quando há suspeita de causa estrutural, como freio da língua curto ou alterações dos dentes, pode ser necessária uma avaliação com o dentista, o ortodontista ou o otorrinolaringologista.
Na consulta de fonoaudiologia definimos que sons trabalhar primeiro e como envolver a família.
Como funciona a terapia
O tratamento começa pela escuta: a criança aprende a distinguir o som correto do som errado, primeiro na fala do adulto e depois na sua. Em seguida trabalha-se a produção do som isolado, depois em sílabas, palavras, frases e, por fim, na conversa do dia a dia. Jogos, figuras e atividades adaptadas à idade tornam o trabalho agradável.
A duração depende do tipo e do número de sons afetados: algumas crianças melhoram em poucos meses, outras precisam de mais tempo. Nas dificuldades fonológicas, o trabalho foca-se nos padrões de erro e não em cada som isolado.
A regularidade dos exercícios em casa, poucos minutos por dia, faz uma grande diferença no resultado.

O que os pais podem fazer
- Repetir a palavra corretamente sem corrigir de forma insistente: «Sim, é um gato».
- Ler livros ilustrados juntos e nomear as figuras.
- Fazer poucos minutos de exercícios por dia, como indicado na terapia.
- Elogiar o esforço, e não só o resultado.
- Evitar imitar os erros da criança, mesmo na brincadeira.
- Conversar com a escola para que todos usem a mesma abordagem.

Dislalia, leitura e escrita
Quando a dificuldade se limita à articulação de um som, como o «r», normalmente não afeta a leitura e a escrita. As dificuldades fonológicas mais amplas, pelo contrário, podem associar-se a problemas na alfabetização, porque envolvem a consciência dos sons dentro das palavras.
Trocas como «f» por «v» ou «p» por «b» na fala podem reaparecer na escrita. Por isso, quando os erros são muitos ou a fala é pouco compreensível, convém intervir antes da entrada no ensino fundamental (em Portugal, o 1.º ciclo).
Pontos-chave
- A dislalia é a dificuldade em pronunciar corretamente alguns sons.
- Muitos erros são normais até os 4–5 anos.
- Se continuam depois dessa idade, convém uma avaliação.
- Audição, freio da língua e mordida podem contribuir.
- A terapia com fonoaudiólogo, com prática em casa, é o tratamento indicado.
Perguntas frequentes sobre dislalia
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
Dislalia passa sozinha?
A dislalia evolutiva passa com o crescimento. Se os erros continuam depois dos 5–6 anos, convém uma avaliação.
Com que idade começar a terapia?
Depende dos erros: para os sons mais tardios, avalia-se normalmente entre os 4 e os 6 anos, antes se a fala é pouco compreensível.
A chupeta causa dislalia?
O uso prolongado pode influenciar a posição da língua e dos dentes; convém reduzi-lo depois dos 2–3 anos.
Dislalia tem a ver com inteligência?
Não. A dislalia não depende da inteligência.
Adultos podem corrigir a dislalia?
Sim. Com terapia e prática regular é possível melhorar também na idade adulta.
É preciso cortar o freio da língua?
Só se o freio limita de facto os movimentos da língua; a decisão toma-se depois de uma avaliação.
Fontes
- American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) · Practice Portal · Speech sound disorders: articulation and phonology
- McLeod S, Crowe K. Children’s consonant acquisition in 27 languages: a cross-linguistic review. Am J Speech Lang Pathol. 2018
- Wren Y, Miller LL, Peters TJ, Emond A, Roulstone S. Prevalence and predictors of persistent speech sound disorder at eight years old: findings from a population cohort study. J Speech Lang Hear Res. 2016
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.

