O que é uma crise de ansiedade
Na linguagem do dia a dia, «crise de ansiedade» descreve um momento em que a ansiedade sobe de repente e o corpo reage como se houvesse um perigo grave. Em termos clínicos, quando o medo é súbito, intenso e vem com vários sintomas físicos, fala-se em ataque de pânico.
O Manual MSD explica que alguns ataques surgem numa situação concreta (por exemplo, diante de algo que se teme muito) e outros aparecem sem nenhum desencadeante aparente, até em repouso ou durante a noite. Os ataques de pânico podem fazer parte de qualquer transtorno de ansiedade e também da depressão.
Sintomas de crise de ansiedade no corpo
- Palpitações ou coração acelerado.
- Falta de ar ou sensação de sufoco.
- Dor ou aperto no peito.
- Sensação de engasgo ou de nó na garganta.
- Tontura, instabilidade ou sensação de desmaio.
- Formigamento ou dormência, sobretudo nas mãos e à volta da boca.
- Suores, tremores, calafrios ou ondas de calor.
- Náuseas, dor de barriga ou diarreia.
A estes somam-se sintomas emocionais: medo de morrer, medo de enlouquecer ou de perder o controle e sensação de irrealidade, como se o mundo ou o próprio corpo estivessem estranhos. Segundo o Manual MSD, um ataque de pânico tem pelo menos quatro destes sintomas.
Por que o corpo reage assim
Durante a crise, o organismo ativa a resposta de alarme: liberta adrenalina, o coração acelera, os músculos ficam tensos e a respiração torna-se rápida e superficial. Respirar depressa demais (hiperventilação) baixa o dióxido de carbono no sangue e provoca tontura, formigamento e sensação de falta de ar, o que aumenta ainda mais o medo.
Forma-se assim um círculo: um sintoma físico é interpretado como perigoso («estou tendo um infarto»), o medo sobe, o corpo reage com mais sintomas. Perceber este círculo é uma das bases do tratamento.
Crise de ansiedade ou problema do coração?
Como os sintomas incluem dor no peito e falta de ar, muitas pessoas vão ao pronto-socorro (em Portugal, à urgência) a pensar que estão tendo um infarto. O Manual MSD lembra que os sintomas graves ou persistentes devem ser avaliados por um médico e que, antes de diagnosticar um ataque de pânico, é preciso excluir doenças físicas, como arritmias, hipertireoidismo ou asma.
Depois de o médico confirmar que se trata de crises de pânico, não é preciso repetir exames a cada crise, a não ser que os sintomas mudem. Mesmo assim, uma dor no peito diferente do habitual, com esforço ou com desmaio, merece sempre avaliação.
Quanto tempo dura uma crise de ansiedade
Segundo o Manual MSD, os sintomas atingem normalmente o pico em cerca de 10 minutos e desaparecem em alguns minutos. Depois, é frequente ficar cansado, com a cabeça pesada ou com medo de que volte a acontecer.
A frequência varia muito: algumas pessoas têm uma crise isolada na vida; outras têm crises semanais ou diárias durante meses, ou várias seguidas e depois semanas sem nenhuma.
O que fazer durante uma crise
- Lembrar a si mesmo que é uma crise de ansiedade: é muito desagradável, mas vai passar e não é perigosa.
- Respirar devagar, com a expiração mais longa do que a inspiração (por exemplo, inspirar em 4 tempos e expirar em 6).
- Sentar-se com os pés bem apoiados no chão e notar o contacto com a cadeira e com o chão.
- Nomear em voz baixa cinco coisas que vê, quatro que ouve, três que pode tocar.
- Não fugir de imediato do lugar, se for seguro: esperar que a onda baixe ensina ao cérebro que a situação não era perigosa.
- Quando a onda baixar, retomar aos poucos o que estava fazendo, em vez de ir embora ou de se deitar.

Quando as crises se tornam síndrome do pânico
O Manual MSD indica que a maioria das pessoas recupera dos ataques de pânico sem tratamento, mas algumas desenvolvem síndrome do pânico: as crises repetem-se, aparecem de forma inesperada e, durante pelo menos um mês, a pessoa vive preocupada com a próxima crise ou muda o comportamento para a evitar.
A síndrome do pânico ocorre em 2% a 3% da população por ano, é duas vezes mais frequente em mulheres e começa geralmente no fim da adolescência ou no início da idade adulta. Quando a pessoa passa a evitar transportes, filas ou multidões, pode surgir a agorafobia.
Tratamento: o que funciona
A terapia cognitivo-comportamental (TCC), incluindo a exposição gradual às sensações e às situações temidas, é a psicoterapia com mais apoio. A revisão Cochrane de Pompoli e colaboradores sobre as terapias psicológicas para o transtorno de pânico, com ou sem agorafobia, concluiu que a TCC é a que tem as provas mais consistentes.
O Manual MSD acrescenta que alguns antidepressivos, sobretudo os ISRS e os IRSN, são eficazes e que os ansiolíticos podem ser usados por pouco tempo, sempre com indicação médica. Na consulta de psicologia trabalhamos as crises, o medo antecipatório e o evitamento.

Quando procurar ajuda
- As crises repetem-se ou aparecem sem motivo aparente.
- Vive com medo da próxima crise.
- Começou a evitar lugares, transportes ou atividades.
- Usa álcool ou outras substâncias para acalmar a ansiedade.
- Há também tristeza persistente, falta de energia ou pensamentos de se ferir.
Pontos-chave
- Uma crise de ansiedade dá sintomas físicos intensos, mas não é perigosa.
- Os sintomas atingem o pico em cerca de 10 minutos e depois diminuem.
- Uma dor no peito nova ou diferente deve ser avaliada por um médico.
- Respirar devagar e não fugir da situação ajudam a atravessar a crise.
- A terapia cognitivo-comportamental é o tratamento psicológico com mais provas.
Perguntas frequentes sobre crise de ansiedade
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
Crise de ansiedade e ataque de pânico são a mesma coisa?
No uso comum, muitas vezes sim. Clinicamente, ataque de pânico é uma crise súbita com pelo menos quatro sintomas físicos ou emocionais.
Uma crise de ansiedade pode matar?
Não. É muito desagradável, mas não é perigosa. Ainda assim, uma dor no peito nova deve ser avaliada.
Por que tenho crises à noite?
Alguns ataques de pânico surgem durante o sono, sem desencadeante aparente. Também respondem ao tratamento.
A crise de ansiedade dá formigamento?
Sim, sobretudo nas mãos e à volta da boca, muitas vezes por respirar depressa demais.
Quanto tempo dura o tratamento?
A terapia cognitivo-comportamental costuma durar algumas semanas a poucos meses, conforme a pessoa.
Devo ir ao pronto-socorro a cada crise?
Não, depois de um médico ter excluído outras causas. Vá se os sintomas forem diferentes do habitual ou muito graves.
Fontes
- Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Ataques de pânico e síndrome do pânico
- Pompoli A, et al. Psychological therapies for panic disorder with or without agoraphobia in adults: a network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2016
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.

