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Automutilação: sinais, causas e como ajudar

A automutilação não suicida é um ato que causa dor ou danos superficiais ao próprio corpo, mas sem a intenção de causar a morte. Segundo o Manual MSD, costuma começar no início da adolescência e a maioria das pessoas deixa de o fazer com a idade. Este guia explica o que é a automutilação, em que difere do suicídio, que sinais podem aparecer, por que acontece, como ajudar e que tratamentos existem.

Tema
Psicologia
Atualizado
Tempo de leitura
8 minutos
Revisado por
Dra. Itziar Gotxi Erezuma · Médica especialista em otorrinolaringologia · Colégio de Médicos de Bizkaia n.º 484809757
Mulher tranquila sentada junto à janela com uma xícara (chávena) nas mãos
A psicoterapia ajuda a encontrar maneiras mais adequadas de responder ao estresse. Imagem ilustrativa gerada com IA.

O que é a automutilação não suicida

Segundo o Manual MSD, a automutilação não suicida é um ato que causa dor ou danos superficiais ao próprio corpo sem a intenção de causar a morte. Geralmente refere-se a um comportamento e não a um transtorno.

No entanto, pode fazer parte de vários transtornos de saúde mental, como:

  • o transtorno de estresse pós-traumático,
  • os transtornos alimentares,
  • os transtornos relacionados com o uso de álcool e outras substâncias,
  • o transtorno de personalidade limítrofe (borderline),
  • o autismo.

Sobre a personalidade borderline, em que a automutilação é frequente, temos um guia sobre o transtorno borderline.

Automutilação e suicídio: em que diferem

A automutilação não suicida é diferente de uma tentativa de suicídio, porque a pessoa não tem a intenção de morrer. Segundo o Manual MSD, estas pessoas muitas vezes declaram especificamente que não estão tentando se matar.

Contudo, da primeira vez pode não estar claro se havia ou não intenção de morrer. E, mesmo quando a automutilação não causa a morte, as pessoas que se automutilam têm provavelmente mais propensão a tentar ou a cometer suicídio. Nos adolescentes, sobretudo nos que usaram várias formas de se magoar, o risco de suicídio é maior.

Se você ou alguém próximo corre risco imediato de suicídio ou já tentou, o Manual MSD indica contactar imediatamente os serviços de emergência e ficar com a pessoa até a ajuda chegar: 112 em Portugal, 192 (SAMU) no Brasil. No Brasil, o CVV atende pelo 188, gratuito e 24 horas; em Portugal, o SNS 24 atende pelo 808 24 24 24.

Quem é afetado e que sinais podem aparecer

Segundo o Manual MSD, a automutilação não suicida tende a começar no início da adolescência. É apenas ligeiramente mais comum em meninas do que em meninos, enquanto o comportamento suicida é muito mais comum em meninas. A maioria das pessoas deixa de se automutilar à medida que envelhece.

O Manual MSD descreve alguns padrões:

  • a pessoa costuma magoar-se várias vezes numa mesma ocasião e no mesmo local,
  • geralmente escolhe zonas fáceis de alcançar e escondidas pela roupa, como os antebraços ou a frente das coxas,
  • o comportamento repete-se, e por isso podem ficar muitas cicatrizes de episódios anteriores,
  • com frequência, a mente da pessoa enche-se de pensamentos agressivos.

Algumas pessoas não acreditam que se automutilar seja um problema e, por isso, tendem a não procurar nem aceitar terapia.

Por que acontece a automutilação

Segundo o Manual MSD, o motivo que leva uma pessoa a automutilar-se é desconhecido, mas a automutilação pode ser:

  • uma maneira de reduzir a tensão ou os sentimentos negativos,
  • uma maneira de resolver dificuldades com outras pessoas,
  • uma autopunição por falhas que a pessoa acredita ter,
  • um pedido de ajuda.

Nos adolescentes, o Manual MSD acrescenta que estes comportamentos podem servir para chamar a atenção dos pais ou de outras pessoas importantes, expressar raiva, regular emoções negativas ou identificar-se com um grupo de colegas. Em muitos adolescentes, não indicam tendência suicida, mas sim ações de autopunição que acreditam merecer.

Mulher pensativa escreve num caderno à mesa
A automutilação pode ser uma maneira de reduzir a tensão ou os sentimentos negativos. Imagem ilustrativa gerada com IA.

Automutilação em crianças e adolescentes

Segundo o Manual MSD, alguns adolescentes que se automutilam, mas não todos, têm outros problemas, como transtornos do humor ou de ansiedade, baixa autoestima, transtornos alimentares, estresse pós-traumático, transtornos de personalidade ou uso de substâncias.

Todas as crianças e adolescentes que se magoam deliberadamente devem ser avaliados por um profissional de saúde mental com experiência em adolescentes. O médico tenta perceber se há de fato risco de suicídio e qual é a angústia de fundo que leva à automutilação.

Para o diagnóstico, os médicos têm de descartar o comportamento suicida e confirmar que a pessoa se magoou pelo menos cinco vezes no último ano, sem intenção suicida, sobretudo para aliviar sentimentos negativos, resolver problemas com outras pessoas ou sentir emoções positivas.

Sobre a baixa autoestima, temos um guia sobre a autoestima baixa.

Como ajudar e como é feita a avaliação

Segundo o Manual MSD, primeiro o médico examina a pessoa para ver se alguma lesão precisa de tratamento. Depois avalia a intenção, os motivos e o humor, e pode conversar com pessoas próximas sobre mudanças de humor e estresses na vida da pessoa, para avaliar o risco de suicídio.

Se a pessoa não acha que a automutilação seja um problema, terá relutância em falar dela. Por isso, o médico tenta primeiro que a pessoa fale, transmitindo:

  • que a escutou e que leva a sua experiência a sério,
  • que entende como se sente e como esses sentimentos podem levar à automutilação.

Depois, procura saber com que frequência acontece, há quanto tempo, com que finalidade e até que ponto a pessoa está disposta a fazer tratamento. Também verifica se existe outro transtorno mental. Para as famílias, a mensagem do Manual MSD é clara: a automutilação não deve ser menosprezada.

Tratamento: psicoterapia

Segundo o Manual MSD, alguns tipos de psicoterapia podem ajudar as pessoas que se automutilam:

  • Terapia cognitivo-comportamental: ajuda a identificar as distorções do pensamento e a compreender como causam problemas, para aprender a pensar de outra forma sobre as experiências.
  • Terapia comportamental dialética: sessões semanais individuais e em grupo durante um ano, com orientação por telefone entre sessões, para encontrar maneiras mais adequadas de responder ao estresse.
  • Terapia de regulação emocional em grupo: 14 semanas em grupo para aceitar as emoções negativas como parte da vida e responder a elas de forma menos intensa e impulsiva.

Nos adolescentes, o tratamento costuma ser terapia individual e, às vezes, em grupo, combinando a terapia cognitivo-comportamental com o apoio da família, e devem marcar-se consultas de seguimento. Não existe nenhum medicamento aprovado para a automutilação, embora alguns tenham sido eficazes em algumas pessoas. Os outros transtornos presentes, como a depressão, também são tratados.

Na nossa consulta de psicologia em Bilbao fazemos terapia cognitivo-comportamental (as consultas são em espanhol).

Psicóloga conversa com um homem numa sessão de terapia
A terapia cognitivo-comportamental e a terapia comportamental dialética podem ajudar. Imagem ilustrativa gerada com IA.

O que diz a pesquisa sobre a psicoterapia

Uma revisão Cochrane (Witt e colaboradores, 2021) reuniu 76 ensaios clínicos com 21 414 adultos que se tinham magoado a si próprios nos seis meses anteriores. Os resultados principais foram:

  • a psicoterapia individual baseada na terapia cognitivo-comportamental pode reduzir a repetição, sobretudo nos seguimentos de 6 e 12 meses (evidência de certeza baixa),
  • num único ensaio, a terapia baseada na mentalização reduziu a repetição,
  • a terapia de regulação emocional em grupo também pode reduzi-la, com base em dois ensaios do mesmo grupo de autores,
  • continua incerto se a terapia comportamental dialética reduz a repetição, embora possa reduzir a frequência.

Segundo os autores, os ensaios tinham limitações metodológicas importantes e a evidência é incerta para muitas intervenções.

Onde as fontes divergem

O Manual MSD e a revisão Cochrane coincidem em grande parte, mas há matizes:

  • Com ou sem intenção suicida: o Manual MSD trata a automutilação não suicida, sem intenção de morrer. A revisão incluiu todos os atos de autolesão, qualquer que fosse a intenção suicida.
  • Terapia comportamental dialética: o Manual MSD inclui-a entre as psicoterapias que podem ajudar. Na revisão, continua incerto se reduz a repetição da autolesão.
  • Regulação emocional em grupo: o Manual MSD descreve-a como útil. A revisão diz que pode reduzir a repetição, mas com base em dois ensaios do mesmo grupo, e pede mais estudos.

Pontos-chave sobre a automutilação

  • A automutilação não suicida causa dor ou danos ao próprio corpo, sem intenção de morrer.
  • Costuma começar no início da adolescência, e a maioria das pessoas deixa de o fazer com a idade.
  • Pode servir para aliviar a tensão, resolver dificuldades, castigar-se ou pedir ajuda.
  • Não deve ser menosprezada: aumenta a probabilidade de tentar o suicídio.
  • Todas as crianças e adolescentes que se magoam devem ser avaliados por um profissional de saúde mental.
  • A terapia cognitivo-comportamental e outras psicoterapias podem ajudar.

Perguntas frequentes sobre a automutilação

Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.

Automutilação é o mesmo que tentativa de suicídio?

Não. Na automutilação não suicida, a pessoa não tem a intenção de morrer. Mas, segundo o Manual MSD, quem se automutila tem provavelmente mais propensão a tentar o suicídio.

Por que alguém se automutila?

O motivo é desconhecido, mas segundo o Manual MSD pode ser uma maneira de reduzir a tensão ou os sentimentos negativos, resolver dificuldades com outras pessoas, castigar-se ou pedir ajuda.

Em que idade começa a automutilação?

Segundo o Manual MSD, tende a começar no início da adolescência. A maioria das pessoas deixa de se automutilar à medida que envelhece.

Como posso ajudar um filho que se automutila?

Segundo o Manual MSD, todas as crianças e adolescentes que se magoam deliberadamente devem ser avaliados por um profissional de saúde mental com experiência em adolescentes, e o tratamento inclui muitas vezes o apoio da família.

Existe medicamento para a automutilação?

Não existe nenhum medicamento aprovado. O Manual MSD diz que alguns medicamentos foram eficazes em algumas pessoas e que se tratam os outros transtornos presentes.

A automutilação é um transtorno?

Geralmente refere-se a um comportamento e não a um transtorno, mas pode fazer parte de vários transtornos de saúde mental, como o transtorno borderline ou os transtornos alimentares.

Fontes

  1. Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Automutilação não suicida
  2. Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Automutilação não suicida em crianças e adolescentes
  3. Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Prevenção do suicídio
  4. Witt KG, et al. Psychosocial interventions for self-harm in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2021

Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.