O que é a icterícia neonatal
Segundo o Manual MSD, a bilirrubina é uma substância amarela que se forma quando o corpo recicla os glóbulos vermelhos velhos. O fígado processa-a e elimina-a com a bile. Se o fígado não consegue processá-la e eliminá-la depressa, ela acumula-se no sangue (hiperbilirrubinemia).
À medida que a bilirrubina aumenta, o branco dos olhos costuma ficar amarelo primeiro, e depois a pele. Às vezes a icterícia é difícil de ver, sobretudo em recém-nascidos de pele escura. É ainda mais comum nos bebês prematuros, porque o fígado, a alimentação, as evacuações e a forma de processar os glóbulos vermelhos ainda não estão totalmente desenvolvidos.
A causa mais comum: a icterícia fisiológica
Segundo o Manual MSD, quase todos os recém-nascidos têm hiperbilirrubinemia fisiológica, por dois motivos:
- os glóbulos vermelhos do recém-nascido decompõem-se mais depressa, o que produz mais bilirrubina;
- o fígado ainda não amadureceu e não consegue eliminá-la tão bem como o de bebês mais velhos.
Costuma surgir dois a três dias depois do nascimento, geralmente não causa outros sintomas e resolve-se em uma semana. A icterícia que surge nas primeiras 24 horas pode dever-se a um problema grave, e se o bebê ainda tiver icterícia às duas semanas, os médicos procuram outras causas.
Icterícia da amamentação e do leite materno
Segundo o Manual MSD, são duas situações diferentes:
- Icterícia da amamentação: aparece nos primeiros dias em alguns bebês que não tomam leite suficiente, por exemplo quando ainda não há produção suficiente de leite; evacuam menos e eliminam menos bilirrubina; à medida que mamam mais, desaparece sozinha, normalmente na primeira semana;
- Icterícia do leite materno: aparece mais para o fim da primeira semana e pode resolver-se na segunda ou persistir vários meses; deve-se a substâncias do leite que interferem na eliminação da bilirrubina.
Segundo o Manual MSD, durante a amamentação costuma recomendar-se não dar água nem água com açúcar ao recém-nascido, porque pode reduzir o leite que o bebê toma e a produção de leite.
Outras causas
Segundo o Manual MSD, outras causas incluem:
- decomposição excessiva de glóbulos vermelhos (hemólise), por exemplo por incompatibilidade entre o tipo de sangue do bebê e o da mãe, ou por doenças hereditárias do sangue;
- hematomas sob a pele por lesões no parto;
- infecções graves, incluindo a sepse, ou infecções urinárias;
- tireoide ou hipófise pouco ativas;
- algumas doenças hereditárias;
- obstrução do fluxo da bile, como na atresia biliar.
Quando a icterícia é perigosa
Segundo o Manual MSD, o perigo depende da causa, do nível de bilirrubina e do tipo de bilirrubina. Algumas causas, como as infecções e a atresia biliar, são perigosas seja qual for o nível. Níveis extremamente altos são perigosos seja qual for a causa.
A consequência mais grave é a encefalopatia bilirrubínica, o efeito tóxico da bilirrubina no cérebro. Na fase aguda causa letargia ou irritabilidade, alterações do tônus ou contrações musculares, má alimentação, choro agudo e, às vezes, convulsões. Pode ser reversível se for tratada rapidamente; sem tratamento, pode deixar lesões cerebrais permanentes (querníctero). Hoje é rara e quase sempre se previne com diagnóstico e tratamento precoces.
Sinais de alerta e quando ligar ao médico
Segundo o Manual MSD, são motivos de preocupação num recém-nascido:
- icterícia que surge no primeiro dia de vida;
- icterícia que surge pela primeira vez depois das duas semanas;
- letargia, má alimentação, irritabilidade e dificuldade para respirar;
- febre.
Com qualquer sinal de alerta, o bebê deve ser avaliado por um médico imediatamente. Se receber alta no primeiro dia, deve marcar-se uma visita para medir a bilirrubina até dois dias depois da alta. Em casa, se os pais notarem a pele ou os olhos amarelados, devem contatar o médico imediatamente. A icterícia que dura mais de duas semanas deve ser avaliada. Fezes de cor mais clara do que o amarelo dourado normal podem sugerir um problema na saída da bile.
Exames, fototerapia e alimentação
Segundo o Manual MSD, a bilirrubina mede-se numa amostra de sangue ou com um sensor colocado na pele, e, se estiver alta, fazem-se outros exames de sangue. O tratamento depende da causa:
- Alimentação frequente: com leite materno ou fórmula, ajuda a prevenir a icterícia ou a reduzir a gravidade, porque aumenta as evacuações; o tipo de fórmula não parece importar;
- Icterícia do leite materno: às vezes aconselha-se parar de amamentar só um ou dois dias, dar fórmula e tirar o leite com bomba para manter a produção;
- Fototerapia: luz forte que transforma a bilirrubina numa forma que se elimina pela urina; o bebê fica sob a luz com pouca roupa, em geral de dois dias a uma semana, e mede-se a bilirrubina no sangue, porque a cor da pele não é um guia fiável;
- Exsanguineotransfusão: troca gradual de sangue, raramente necessária, quando a bilirrubina está muito alta e a fototerapia não basta.
O que diz a pesquisa sobre a fototerapia preventiva
Uma revisão Cochrane de 2012 (Okwundu e colaboradores) reuniu nove estudos, com 3.449 bebês prematuros ou de baixo peso, sobre a fototerapia preventiva, iniciada antes de a bilirrubina subir:
- a fototerapia preventiva manteve níveis de bilirrubina mais baixos;
- reduziu as exsanguineotransfusões num estudo antigo, mas não nos mais recentes;
- não houve diferença na paralisia cerebral nem na mortalidade, embora um estudo grande tenha encontrado um pouco menos de alterações do neurodesenvolvimento.
Os autores pedem mais estudos sobre a eficácia e a segurança a longo prazo.
Onde as fontes divergem
As fontes coincidem em que a fototerapia baixa a bilirrubina, com matizes:
- Quando usar a fototerapia: o Manual MSD descreve-a como tratamento quando a bilirrubina está alta; a revisão estudou o uso preventivo em prematuros e de baixo peso.
- A população: a revisão incluiu só prematuros ou bebês de baixo peso; o Manual MSD fala de todos os recém-nascidos.
- Os efeitos a longo prazo: o Manual MSD diz que a fototerapia pode ajudar a prevenir o querníctero; a revisão pede mais estudos sobre os resultados a longo prazo.
Pontos-chave sobre a icterícia neonatal
- Pouco mais de metade dos recém-nascidos tem icterícia visível na primeira semana.
- A icterícia fisiológica aparece aos dois ou três dias e passa em uma semana.
- Icterícia no primeiro dia, depois das duas semanas ou com febre ou má alimentação exige avaliação imediata.
- Se os pais notarem a pele ou os olhos amarelados em casa, devem contatar o médico.
- Alimentar com frequência ajuda a eliminar a bilirrubina.
- Quando a bilirrubina está alta, a fototerapia é o tratamento habitual.
Perguntas frequentes sobre a icterícia no recém-nascido
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
É normal o recém-nascido ficar amarelo?
É frequente. Segundo o Manual MSD, pouco mais de metade dos recém-nascidos tem icterícia visível na primeira semana, e a fisiológica passa sozinha em uma semana.
Quanto tempo dura a icterícia do recém-nascido?
Segundo o Manual MSD, a fisiológica resolve-se em uma semana; a do leite materno pode durar até vários meses. Se durar mais de duas semanas, deve ser avaliada.
O banho de sol ajuda na icterícia?
O Manual MSD não fala do sol; o tratamento que descreve é a fototerapia com aparelhos especiais, com medição da bilirrubina no sangue.
Devo parar de amamentar se o bebê tiver icterícia?
Na maioria dos casos não. Segundo o Manual MSD, mamar com mais frequência ajuda; só na icterícia do leite materno às vezes se aconselha uma pausa de um ou dois dias.
Quando a icterícia do recém-nascido é perigosa?
Segundo o Manual MSD, quando surge no primeiro dia, depois das duas semanas, com níveis de bilirrubina muito altos ou com sinais como letargia, má alimentação ou febre.
Posso dar água ao bebê com icterícia?
Segundo o Manual MSD, durante a amamentação costuma recomendar-se não dar água nem água com açúcar, porque reduz o leite que o bebê toma.
Fontes
- Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Icterícia no recém-nascido
- Okwundu CI, Okoromah CAN, Shah PS. Prophylactic phototherapy for preventing jaundice in preterm or low birth weight infants. Cochrane Database Syst Rev. 2012
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.
