O que é a diástase abdominal
Os músculos retos abdominais são as duas faixas verticais que vão das costelas até o púbis, unidas no meio por um tecido fibroso chamado linha alba. Durante a gravidez, o útero cresce e os hormônios tornam os tecidos mais elásticos, de modo que a linha alba se alarga e os músculos se afastam.
Fala-se de diástase quando essa separação é maior do que o normal. Não é um rasgo dos músculos nem uma hérnia: os músculos continuam lá, mas mais afastados, e a linha alba fica mais fina e flexível. Também pode aparecer em homens, por exemplo com aumento do abdômen, e em recém-nascidos.
É frequente? O que dizem os estudos
O estudo de Sperstad e colaboradores acompanhou 300 mulheres na Noruega, todas na primeira gravidez, desde a gestação até um ano depois do parto. Definiram diástase como uma separação de pelo menos dois dedos medida acima, na altura e abaixo do umbigo.
Cerca de um terço das mulheres tinha diástase às 21 semanas de gravidez, cerca de 60% às seis semanas do pós-parto, quase metade aos seis meses e cerca de um terço aos 12 meses. Ou seja, é muito comum e, em muitas mulheres, a separação diminui de forma espontânea ao longo do primeiro ano, embora nem sempre por completo. Os autores sublinham que a maioria dos casos era leve.
Como se nota a diástase
- Uma saliência alongada no meio da barriga ao fazer força, por exemplo ao se levantar da cama ou ao tossir.
- Sensação de barriga mole ou de falta de firmeza no centro do abdômen.
- Um afundamento na linha média quando os músculos estão contraídos.
- Às vezes, incômodo ao carregar peso ou ao fazer exercícios abdominais.
O estudo norueguês não encontrou mais dor lombar ou pélvica nas mulheres com diástase do que nas outras ao fim de um ano. Por isso, se houver dor nas costas, convém avaliá-la por si mesma e não atribuí-la automaticamente à diástase.
Como fazer o teste dos dedos
Uma forma simples de ter uma ideia é o teste dos dedos. Deite-se de barriga para cima, com os joelhos dobrados e os pés apoiados. Coloque os dedos, alinhados na horizontal, sobre o umbigo e levante ligeiramente a cabeça e os ombros, como se fosse fazer um abdominal curto.
Repare quantos dedos cabem entre as duas bordas dos músculos e quanto os dedos afundam. Repita um pouco acima e um pouco abaixo do umbigo. Esse teste é uma orientação, não um diagnóstico: o fisioterapeuta mede com mais precisão, às vezes com ecografia (ultrassom), e avalia também a tensão da linha alba, que importa tanto quanto a largura.

Fatores relacionados
A gravidez é a causa principal. Fala-se com frequência de fatores como gestações múltiplas, bebês grandes, idade ou cesariana, mas no estudo de Sperstad e colaboradores não se encontraram diferenças nos fatores de risco estudados entre as mulheres com e sem diástase. A única associação foi com levantar peso com muita frequência, 20 vezes ou mais por semana, que aumentava a probabilidade de ter diástase.
Em suma, ainda não se sabe bem por que algumas mulheres recuperam mais do que outras. Por isso, não faz sentido culpar-se pela diástase nem pela forma como foi a gravidez.
Exercícios e fisioterapia
A revisão sistemática de Benjamin, van de Water e Peiris, de 2014, reuniu os estudos sobre exercício e diástase na gravidez e no pós-parto. Encontrou evidências de baixa qualidade de que o exercício, sobretudo durante a gravidez, pode reduzir a presença de diástase, e concluiu que ainda não se pode recomendar um programa específico.
Na prática, a fisioterapia no pós-parto costuma combinar respiração e ativação do músculo transverso do abdômen, trabalho do assoalho pélvico (pavimento pélvico), progressão gradual de exercícios de força para o tronco e as pernas e conselhos para levantar o bebê e as cargas do dia a dia. O objetivo é que o abdômen volte a transmitir força e a sentir-se firme, mais do que fechar uma medida concreta.

Cuidados no dia a dia
- Para se levantar da cama, vire-se primeiro de lado e apoie-se no braço.
- Ao levantar o bebê ou peso, expire e contraia ligeiramente o abdômen.
- Evite prender a respiração ao fazer força.
- Retome o exercício aos poucos e note se aparece saliência na linha média.
- Cuide da prisão de ventre (obstipação), que obriga a fazer força.
Não é preciso proibir os abdominais para sempre. Se um exercício faz a barriga formar um cone e não consegue controlá-lo, convém adaptá-lo com o fisioterapeuta e progredir aos poucos.
Cintas e faixas abdominais: ajudam?
Muitas mulheres usam cintas ou faixas no pós-parto porque se sentem mais firmes e confortáveis. Podem dar alívio nas primeiras semanas, mas não há evidências suficientes de que, por si sós, fechem a diástase.
O mais importante é recuperar a função dos músculos com exercício progressivo. Se usar faixa, que não aperte em excesso nem empurre o abdômen para baixo, e não a use como substituto do trabalho muscular.
Quando se pensa em cirurgia
A cirurgia, que aproxima os músculos e reforça a linha alba, é reservada para casos em que, depois de um tratamento conservador bem feito e passado o primeiro ano, persiste uma separação importante com sintomas que incomodam, ou quando há uma hérnia associada.
É uma decisão individual, que se toma com o cirurgião depois de conhecer os benefícios e os riscos. Antes, uma avaliação de fisioterapia ajuda a saber até onde a recuperação pode chegar sem operar.
Pontos-chave
- A diástase é a separação dos músculos retos abdominais, muito comum no pós-parto.
- Em muitas mulheres diminui ao longo do primeiro ano.
- Não se associou a mais dor lombar ou pélvica num estudo de um ano.
- O exercício guiado é a base, embora não haja um programa único comprovado.
- A cirurgia fica para casos persistentes e com sintomas.
Perguntas frequentes sobre diástase abdominal
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
Diástase abdominal fecha sozinha?
Em muitas mulheres a separação diminui durante o primeiro ano, mas cerca de um terço ainda a tinha aos 12 meses num estudo norueguês.
Quantos dedos de diástase é normal?
No estudo norueguês, falou-se de diástase a partir de dois dedos de separação. A tensão da linha alba também conta.
Posso fazer abdominais com diástase?
Pode, adaptando-os. Se a barriga formar um cone, convém ajustar o exercício com um fisioterapeuta.
Diástase dá dor nas costas?
Num estudo de um ano, as mulheres com diástase não tinham mais dor lombar ou pélvica do que as outras.
Diástase é hérnia?
Não. Na diástase os músculos se afastam; na hérnia há um orifício por onde sai conteúdo do abdômen. Podem coexistir.
Quando começar os exercícios?
Os exercícios suaves de respiração e assoalho pélvico podem começar cedo; a progressão depende do parto e da avaliação.
Fontes
- Sperstad JB, et al. Diastasis recti abdominis during pregnancy and 12 months after childbirth: prevalence, risk factors and report of lumbopelvic pain. Br J Sports Med. 2016
- Benjamin DR, van de Water ATM, Peiris CL. Effects of exercise on diastasis of the rectus abdominis muscle in the antenatal and postnatal periods: a systematic review. Physiotherapy. 2014
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.

