O que é canelite
Canelite é o nome popular da síndrome do estresse tibial medial, também chamada periostite tibial. É uma dor ao longo da borda interna da tíbia, o osso da canela, normalmente no terço médio ou inferior da perna. O termo «canelite» é usado tanto no Brasil como em Portugal.
Acredita-se que a dor resulte da sobrecarga repetida do osso e das inserções musculares na tíbia, quando o osso não tem tempo de se adaptar ao aumento de carga. Não é uma inflamação no sentido clássico, e por isso o tratamento se baseia mais em gerir a carga do que em anti-inflamatórios.
O Manual MSD distingue duas localizações: a parte anterior e externa da perna e a parte posterior e interna. A forma posterointerna é a mais típica nos corredores.
Sintomas de canelite
- Dor difusa ao longo da borda interna da tíbia, numa faixa de vários centímetros.
- Dor que aparece no início da corrida e, no começo, diminui à medida que o exercício continua.
- Com o tempo, dor que persiste depois do treino ou no dia seguinte.
- Sensibilidade ao apertar a borda do osso.
- Às vezes, leve inchaço na zona dolorosa.
- Em geral, sem dor em repouso nem à noite: se ela aparece, é preciso pensar em fratura por estresse.
Por que aparece a canelite
A causa principal é o aumento rápido da carga: começar a correr, correr mais quilômetros, mais dias ou em ritmo mais rápido sem uma progressão gradual. Superfícies duras, ladeiras e calçado gasto podem contribuir.
A revisão sistemática de Newman e colaboradores, com corredores, identificou como fatores de risco o sexo feminino, um índice de massa corporal mais alto, uma maior queda do navicular (sinal de pé que prona mais), a amplitude de rotação externa do quadril e o histórico prévio de canelite. O Manual MSD acrescenta que rotações excessivas do pé também podem causar ou agravar o problema.
Nem todos esses fatores podem ser modificados, mas conhecê-los ajuda a ajustar o treino. O fator mais fácil de mudar continua sendo a rapidez com que se aumenta a carga.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico é clínico. Um estudo de Winters e colaboradores mostrou que a síndrome do estresse tibial medial pode ser diagnosticada de forma fiável com a história e o exame físico: dor ligada ao exercício, ao longo de pelo menos cinco centímetros da borda interna da tíbia, e sensibilidade difusa à palpação.
Os exames de imagem não são necessários na maioria dos casos. Ficam reservados para quando há suspeita de fratura por estresse ou de outra causa, como a síndrome compartimental crônica, que dá dor, tensão e por vezes formigamento nos músculos da perna durante o exercício e alivia logo ao parar.
A diferença com a fratura por estresse é importante: na fratura, a dor é muito localizada num ponto do osso, pode surgir em repouso e obriga a um repouso mais rigoroso.

Como tratar a canelite
A revisão de Winters e colaboradores sobre o tratamento concluiu que nenhuma intervenção, como ondas de choque, palmilhas, meias de compressão ou ultrassom, demonstrou ser claramente superior ao repouso relativo. A base do tratamento é, portanto, reduzir a carga até a dor permitir e voltar de forma progressiva.
Na prática, isso significa parar ou reduzir muito a corrida durante algumas semanas e manter a forma física com atividades sem impacto, como natação, bicicleta ou corrida na água, como também recomenda o Manual MSD. Gelo e analgésicos podem aliviar a dor nos primeiros dias.
Quando a dor começa a desaparecer, iniciam-se exercícios de fortalecimento da panturrilha (gémeos, em Portugal), dos músculos do pé e do quadril, e de alongamento. O fisioterapeuta pode ajudar a planejar essa fase e o regresso à corrida, na nossa consulta de fisioterapia.
Exercícios úteis na recuperação
- Elevação dos calcanhares em pé, primeiro com os dois pés e depois com um, de forma lenta.
- Caminhar sobre os calcanhares e depois sobre as pontas dos pés, alguns metros de cada vez.
- Alongamento da panturrilha contra a parede, com o joelho esticado e depois dobrado.
- Fortalecimento do pé, por exemplo apanhar uma toalha com os dedos.
- Exercícios de quadril, como a ponte e a abertura lateral da perna deitado de lado.
- Aumentar a dificuldade só quando o exercício anterior não provoca dor no dia seguinte.
Como voltar a correr sem recaídas
O regresso deve ser gradual. Um critério prático é conseguir caminhar rápido, saltitar e fazer elevações de calcanhar com uma perna sem dor antes de voltar a correr. Depois, começa-se com intervalos de corrida e caminhada, em terreno plano e macio, em dias alternados.
A dor durante a corrida deve ser no máximo leve e não aumentar no dia seguinte. Se aumentar, volta-se ao nível anterior durante alguns dias. Aumentar o volume semanal aos poucos e evitar mudar ao mesmo tempo de calçado, de superfície e de intensidade reduz o risco de recaída.
Calçado em bom estado e adequado ao tipo de pé ajuda, embora não haja provas fortes de que um modelo específico previna a canelite. Correr com uma cadência ligeiramente mais alta, com passos mais curtos, pode diminuir o impacto em algumas pessoas.

Quanto tempo dura a canelite
A duração depende de quanto tempo a pessoa continuou treinando com dor e de como gere a carga a partir do diagnóstico. Os casos leves costumam melhorar em duas a quatro semanas de repouso relativo; os mais antigos podem levar vários meses até o regresso completo ao esporte.
Continuar correndo com dor que aumenta é a principal causa de evolução prolongada e aumenta o risco de fratura por estresse. Uma pausa a tempo costuma encurtar a recuperação.
Quem já teve canelite tem mais risco de ter de novo, por isso convém manter os exercícios de fortalecimento mesmo depois de a dor desaparecer.
Quando procurar um profissional
Convém consultar um médico ou fisioterapeuta se a dor não melhora após duas ou três semanas de descanso relativo, se aparece em repouso ou à noite, se é muito localizada num ponto do osso, se há inchaço importante ou se a perna dói ao caminhar normalmente.
Também é motivo de avaliação a dor acompanhada de dormência, formigamento ou fraqueza no pé durante o exercício, que pode sugerir uma síndrome compartimental, e a dor em pessoas com menstruação irregular, baixo peso ou dieta muito restritiva, pela relação com a saúde óssea.
Na consulta, o profissional examina a perna, revê o treino e o calçado e decide se é preciso algum exame de imagem.
Pontos-chave
- Canelite é a dor por sobrecarga na borda interna da tíbia.
- O aumento rápido do treino é a causa mais comum.
- O tratamento é reduzir a carga, manter a forma sem impacto e fortalecer.
- O regresso à corrida deve ser progressivo e guiado pela dor.
- Dor localizada no osso ou em repouso pode indicar fratura por estresse.
Perguntas frequentes sobre canelite
Estas respostas são informações gerais e não substituem uma consulta nem uma avaliação médica individual.
Posso correr com canelite?
Só se a dor for leve e não piorar no dia seguinte; se piora, é preciso reduzir a carga.
Gelo ajuda na canelite?
Pode aliviar a dor nos primeiros dias, mas não substitui o ajuste do treino.
Canelite é o mesmo que fratura por estresse?
Não. A fratura dá dor num ponto concreto do osso, muitas vezes em repouso, e exige mais repouso.
Palmilhas resolvem a canelite?
Podem ajudar algumas pessoas com pés muito pronados, mas não demonstraram ser melhores do que o repouso relativo.
Caminhar faz mal?
Caminhar sem dor costuma ser permitido e ajuda a manter a atividade.
A canelite pode voltar?
Sim; o histórico prévio é um fator de risco, por isso convém manter o fortalecimento.
Fontes
- Manual MSD (Versão Saúde para a Família) · Periostite tibial
- Winters M, et al. Medial tibial stress syndrome can be diagnosed reliably using history and physical examination. Br J Sports Med. 2018
- Newman P, Witchalls J, Waddington G, Adams R. Risk factors associated with medial tibial stress syndrome in runners: a systematic review and meta-analysis. Open Access J Sports Med. 2013
- Winters M, Eskes M, Weir A, Moen MH, Backx FJG, Bakker EWP. Treatment of medial tibial stress syndrome: a systematic review. Sports Med. 2013
Este guia tem finalidade informativa e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dependem da sua consulta e do seu histórico clínico. Em caso de emergência, ligue para o 112.

